Cravo-da-índia: tudo sobre a especiaria mais cheirosa da cozinha – origem, história, curiosidades e como usar

Ele é pequenininho, tem formato de prego e um perfume que entra na cozinha antes de você. Basta um único cravo-da-índia na panela da canjica para a casa inteira para a lembrança de festa junina vir a tona. E basta morder um sem querer no meio do doce de abóbora para descobrir que ele também tem personalidade forte (quem nunca, né?).

Pouca gente imagina que esse botãozinho seco já valeu fortunas, provocou guerras entre impérios, viajou escondido em navios de contrabando e foi parar até no hálito dos cortesãos da China antiga. Hoje ele mora tranquilo no armário de quase toda casa brasileira, mas carrega uma história digna de novela das nove.

Aqui no Magalinices, a gente acredita que conhecer a história de um ingrediente é um jeito carinhoso de cozinhar melhor para quem a gente ama. Então pega um cafezinho, que hoje o assunto é o cravo-da-índia: origem, história, curiosidades, tipos, como usar e com o que ele combina. E no final tem uma sessão de perguntas e respostas para tirar todas as dúvidas.

O que é o cravo-da-índia?

O cravo-da-índia é o botão da flor de uma árvore chamada craveiro (Syzygium aromaticum) da mesma família da goiabeira e da jabuticabeira. Os botões são colhidos ainda fechados, quando estão rosados, e secam ao sol até ficarem marrons e durinhos, com aquele formato de preguinho que a gente conhece.

Craveiro: arvore do cravo-da-índia | Magalinices
Cloves Flower Buds, St. Mary`s Island, Analanjirofo Region, Madagascar. Cloves are the aromatic flower buds of a tree in the family Myrtaceae, Syzygium aromaticum

E o nome tem tudo a ver com esse formato: “cravo” vem do latim clavus, que significa prego. Em francês ele é clou de girofle e em inglês clove, e todos remetem à mesma ideia. Já o “da-índia” é herança dos tempos em que tudo o que vinha do Oriente era chamado de “coisa das Índias”, mesmo que, como você vai ver, o cravo nem seja indiano.

O segredo do perfume está no eugenol, um óleo aromático que o cravo tem em grande quantidade. É ele que dá o aroma quente, adocicado e levemente picante, e também aquela sensação de “dormência” na língua quando você morde um cravinho.

Não confunda: o cravo-da-índia não tem nada a ver com o cravo, a flor de jardim (Dianthus). Os dois só dividem o nome. Um vai na canjica, o outro vai no vaso.

Origem: as Ilhas das Especiarias

O cravo-da-índia nasceu nas Ilhas Molucas, um pequeno arquipélago vulcânico da atual Indonésia, conhecido na história como “Ilhas das Especiarias”. Por muitos séculos, ele só crescia em algumas dessas ilhas, principalmente Ternate e Tidore. Era como se o mundo inteiro dependesse de um punhadinho de terra no meio do oceano para ter cravo na cozinha.

Dali, o cravo seguia em barcos de mercadores malaios, chineses, indianos e árabes, passando de mão em mão (e de preço em preço) até chegar à Europa, à África e ao Oriente Médio. Quando finalmente chegava ao destino, valia uma pequena fortuna.

A história do cravo-da-índia: de tesouro a tempero do dia a dia

Um cravo de quase 4 mil anos

Uma das descobertas mais impressionantes sobre o cravo aconteceu na Síria: arqueólogos encontraram cravos dentro de um jarro de cerâmica numa casa da antiga cidade de Terqa, com cerca de 3.700 anos. Ou seja, muito antes das grandes navegações, o cravo já tinha atravessado milhares de quilômetros desde as Molucas. Viajante desde sempre, esse pequeno.

O primeiro “enxaguante bucal” da história

Na China antiga, durante a dinastia Han, conta-se que os funcionários da corte precisavam mastigar cravo antes de falar com o imperador, para garantir um hálito perfumado. Imagina a cena: a reunião mais importante da sua vida e você ali, mastigando um preguinho de especiaria. Mas funcionava!

Mais caro que ouro (de novo!)

Assim como a pimenta-do-reino e a noz-moscada, o cravo era uma das especiarias mais desejadas da Idade Média. Era usado para conservar e perfumar alimentos, em remédios e como símbolo de riqueza. Quem servia comida com cravo estava dizendo, sem falar nada: “aqui em casa tem dinheiro”.

Portugueses, holandeses e um monopólio pesado

No início do século XVI, os portugueses chegaram às Molucas e passaram a controlar boa parte do comércio de cravo. Depois vieram os holandeses, que no século XVII tomaram o controle e foram ainda mais longe: para manter o preço lá em cima, concentraram o cultivo em poucas ilhas e mandaram destruir as árvores que cresciam fora delas. O cravo virou assunto de guerra, contrabando e muita intriga.

O contrabando que mudou tudo

Por volta de 1770, um administrador francês chamado Pierre Poivre (sim, o sobrenome dele significa “pimenta” em francês, a gente não inventaria isso) conseguiu levar mudas de cravo e noz-moscada escondidas para a Ilha Maurício, quebrando o monopólio holandês. De lá, o cravo se espalhou para outras ilhas do Oceano Índico, como Zanzibar e Madagascar, que viraram grandes produtoras.

E o Brasil nessa história?

O cravo-da-índia chegou ao Brasil nos tempos coloniais e encontrou um lar perfeito no Baixo Sul da Bahia, em cidades como Valença, Ituberá, Taperoá e Camamu. O clima quente e úmido da região é parecido com o das ilhas de origem, e até hoje a Bahia é a principal produtora de cravo do país. Não é à toa que a Gabriela de Jorge Amado era “cravo e canela”: cheiro de Bahia é cheiro de especiaria.

Hoje, a Indonésia continua sendo a maior produtora de cravo do mundo, e também a maior consumidora: grande parte da produção vai para os kretek, cigarros tradicionais do país feitos com tabaco e cravo.

Curiosidades sobre o cravo-da-índia

  • Ele é uma flor que nunca abriu. Se o botão não for colhido a tempo, ele desabrocha numa florzinha e perde o valor como especiaria.
  • Dentistas já usaram muito. O óleo de cravo, rico em eugenol, foi usado por muito tempo na odontologia pelo efeito anestésico e antisséptico. Aquele cheirinho de consultório de dentista? Muitas vezes era cravo!
  • Teste de qualidade caseiro: aperte um cravo com a unha. Se soltar um pouquinho de óleo e perfumar seus dedos, ele está fresco. Se estiver seco e sem cheiro, já perdeu a graça.
  • A árvore é paciente: um pé de cravo leva vários anos para começar a produzir e pode viver por muitas décadas. Nas Molucas, existem árvores antiquíssimas que viraram atração turística.
  • Laranja cravejada: espetar cravos numa laranja inteira é uma tradição antiga para perfumar armários e enfeitar a mesa de Natal. É lindo, cheiroso e uma ótima atividade para fazer com as crianças.
  • Cebola cravejada: chefs franceses espetam alguns cravos numa cebola e colocam no leite do molho bechamel e nos caldos. O sabor fica sutil, e fica fácil retirar tudo depois.
  • Repelente natural: muita gente coloca cravos em fatias de limão ou laranja para espantar moscas e formigas. Se funciona sempre a gente não garante, mas a cozinha fica cheirosa com certeza.

Tipos de cravo-da-índia: qual usar?

Na cozinha, o cravo-da-índia aparece em três formas principais. Cada uma tem o seu momento:

Cravo inteiro

É o mais comum e o que mais dura. Ideal para preparos líquidos e de cozimento longo, como canjica, doces em calda, quentão, vinho quente, chás, caldos e carnes de panela. Como é durinho e tem sabor intenso, o ideal é retirar antes de servir (ou avisar a família para não ter surpresas no meio da colherada).

Cravo em pó (moído)

Perfeito para bolos, biscoitos, pães de mel, massas e misturas de especiarias, porque se espalha por igual na receita. Mas atenção: o cravo moído é muito potente e perde o aroma mais rápido. Uma pitada já faz diferença. Dica de quem cuida: compre o inteiro e moa na hora, num pilão ou moedor, só a quantidade que vai usar.

Óleo essencial de cravo

É o concentrado do aroma, usado em aromaterapia, cosméticos e produtos de limpeza. Não é para usar na comida como se fosse tempero, porque é extremamente concentrado e pode irritar a boca e o estômago. Na cozinha, fique com o cravo inteiro ou em pó.

Como escolher e guardar o cravo-da-índia

  • Prefira cravos inteiros, escuros e com a “cabecinha” (o botão redondo da ponta). Cravos quebrados ou sem cabeça costumam ter menos aroma.
  • Guarde em pote de vidro bem fechado, longe da luz, do calor e da umidade. Nada de deixar o pote ao lado do fogão!
  • O cravo inteiro mantém o aroma por bastante tempo. O moído perde força em poucos meses, então compre em pequenas quantidades.

Com o que o cravo-da-índia combina?

O cravo é aquele amigo que se dá bem com todo mundo, desde que ninguém exagere. Ele brilha tanto em receitas doces quanto salgadas e em bebidas quentinhas.

Nos doces

  • Canjica e arroz doce (veja a nossa canjica aos 5 leites)
  • Doce de abóbora, goiabada caseira e compotas de frutas
  • Maçã e pera cozidas ou assadas
  • Bolos de especiarias, pão de mel e biscoitos natalinos (experimente o nosso bolo de laranja com especiarias)
  • Calda de laranja e frutas em calda

Nas bebidas

  • Quentão e vinho quente (que tal o nosso quentão sem álcool?)
  • Chás de frutas e infusões de inverno
  • Chai indiano, junto com canela, cardamomo e gengibre
  • Café coado com um cravinho no pó (experimente uma vez e depois conte pra gente!)

Nos salgados

  • Tender e presunto assados, a clássica decoração de Natal com cravos espetados
  • Carne de panela, ensopados e marinadas
  • Feijão: muita família brasileira coloca um ou dois cravos no tempero, e o resultado é delicioso
  • Molho bechamel e caldos com a cebola cravejada
  • Arroz pilaf, curries e pratos indianos
  • Picles e conservas

Parceiros de especiaria

O cravo forma duplas e trios lindos com a canela (a dupla mais famosa do Brasil), a noz-moscada, o cardamomo, o gengibre, a baunilha, o anis-estrelado e as raspas de laranja. Ele também aparece em misturas famosas do mundo todo, como o garam masala indiano, o pó de cinco especiarias chinês e o pumpkin spice americano.

Receitinha rápida: chá de cravo, canela e laranja

Para provar o cravo na sua melhor versão aconchegante, nada como um chazinho para os dias frios:

  • 500 ml de água
  • 4 cravos-da-índia
  • 1 pau de canela
  • Casca de 1/2 laranja (só a parte laranja, sem o branco)
  • Mel a gosto (opcional)
  1. Coloque a água, os cravos, a canela e a casca de laranja numa panela.
  2. Deixe ferver e cozinhe em fogo baixo por 5 minutos.
  3. Desligue o fogo, tampe e deixe descansar por mais 5 minutos.
  4. Coe, adoce com mel se quiser e sirva quentinho, de preferência com alguém querido do lado.

Se gostar de bebidas quentinhas, também vai amar o nosso chá de gengibre, mel e limão.

Cuidados com o cravo-da-índia

Na comida, em pequenas quantidades, o cravo é seguro e delicioso. Mas como ele é muito concentrado, vale lembrar alguns cuidados:

  • Use com moderação. Em excesso, o cravo deixa a receita amarga e com sabor de remédio. Na dúvida, comece com pouco.
  • Óleo essencial não é tempero. Não ingira o óleo puro e mantenha longe do alcance das crianças.
  • Gestantes, crianças pequenas e pessoas que usam anticoagulantes ou têm problemas no fígado devem conversar com um médico antes de usar chás ou suplementos de cravo em grande quantidade.
  • Este post é informativo e não substitui a orientação de um profissional de saúde.

Perguntas e respostas sobre o cravo-da-índia

Por que o cravo-da-índia tem esse nome?

“Cravo” vem do latim clavus, que significa prego, por causa do formato. E “da-índia” é porque, na época das navegações, tudo o que vinha do Oriente era chamado de “das Índias”. Na verdade, ele é originário das Ilhas Molucas, na Indonésia.

O cravo-da-índia é uma flor?

Sim! É o botão da flor da árvore Syzygium aromaticum, colhido antes de abrir e seco ao sol.

Qual é o sabor do cravo-da-índia?

Quente, intenso, levemente adocicado e um pouco picante, com um final que “adormece” a língua. É um sabor marcante, por isso pouca quantidade já basta.

Quantos cravos devo usar numa receita?

Como regra geral, 2 a 4 cravos inteiros para uma panela de canjica, um litro de chá ou uma receita de doce em calda. Em pó, uma pitada (cerca de 1/4 de colher de chá) para um bolo inteiro. Sempre é mais fácil acrescentar do que tirar!

Posso substituir cravo inteiro por cravo em pó?

Pode, mas use bem menos. Uma pitada de cravo em pó equivale mais ou menos a 2 ou 3 cravos inteiros. Lembre que o pó não pode ser retirado depois, então vá com calma.

Precisa tirar o cravo antes de servir?

É o ideal. O cravo inteiro é duro e, se alguém morder, o sabor é muito forte. Uma dica é colocar os cravos num saquinho de voal ou num infusor de chá, ou espetá-los numa casca de laranja, para retirar tudo de uma vez.

Qual a diferença entre cravo-da-índia e cravo de jardim?

Só o nome. O cravo de jardim (Dianthus) é uma flor ornamental e não é usado como tempero. O cravo-da-índia é a especiaria.

Onde o cravo-da-índia é produzido no Brasil?

Principalmente no Baixo Sul da Bahia, em cidades como Valença, Ituberá, Taperoá e Camamu. A região é a principal produtora do país.

Como saber se o cravo ainda está bom?

Aperte com a unha: se soltar um pouco de óleo e perfumar, está ótimo. Se estiver sem cheiro, seco demais e quebradiço, já perdeu o aroma e é hora de renovar o pote.

Um preguinho cheio de história (e de carinho)

O cravo-da-índia já foi tesouro de reis, motivo de guerra e segredo de contrabandistas. Hoje ele está ao alcance da sua mão, pronto para perfumar a canjica da festa junina, o quentão do inverno, o tender do Natal e aquele chazinho que a gente faz para cuidar de quem está gripado. Poucos ingredientes carregam tanta história num tamanho tão pequeno.

Que tal colocar um cravinho em alguma receita ainda esta semana? Depois conta pra gente nos comentários em qual receita você usou e se alguém da família mordeu um sem querer (prometemos não rir… muito). 😄

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